
A Pombinha
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com fome",
disse o primeiro,
"e não tem nada para comer."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha carpir.
"Eu acho que ela ficou presa",
disse o segundo,
"e não sabe como fugir."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com saudade",
disse o terceiro,
"e com certeza vai morrer".Cecília despertava em minhas manhãs o desejo pela leveza, nas viagens do jardim inexistente, em olhares ora complexos, ora flutuantes.
Ela era dessas moças que deviam existir aos montes
Era a liberdade presa pelo mundo pequeno e sufocante
Era a viagem, também a vaga músicaRabiscando o caderno, apontando lápis, soprando forte o vestígio da borracha...éramos muitos, em marcações no quartel Bento de Godoy
Deveríamos atingir as metas de felicidades, e os fazíamos com muita presteza.Um beijo Ceci!
Tantas coisas a contar. Dias intensos no Rio de Janeiro, na cidade muito além do noticiário. Boicotando novamente roteiros como o corcovado, que demonstra a supremacia do cristianismo no nosso Brasil, varrendo para o tapete a multiplicidade cultural e religiosa do nosso país.
Tá, uma tarde ou outra no posto 9 em ipanema. A alta cúpula da FAFELLI ( Faculdade Feliz Legal Linda e Inteligente) deu muitas pernadinhas, seja em niterói ou na capital.
Não poderíamos ter começado a viagem de melhor maneira que cair de para-quedas no velório da Dercy Gonçalves, ícone pop e jurássico, com irrevêrencia. Fomos até criticados no duelo de MC's por pedir uma rima sobre a finada. Mas rimar frases machistas e homofóbicas pode, não é?
O show do Bnegão dizem que foi bom, não me lembro de muita coisa.
Itacoatiara, itaipu, zona norte em madureira.
Foi raro aquele momento no morro e apreciar/aprender/brincar jongo da serrinha.
Foi bom sair correndo do morro do Estado em Niterói, pedir ajuda como um louco na rua.
Será que o Rio é a melhor cidade da América do Sul? A melhor não sei, mas a mais desigual posso até arriscar um palpite.
O Maranhão, literalmente, foi maravilhoso! Tiquira + Jesus = explosão!!!
Não sei o porquê desta fase mais conflituosa, "cousas" na cabeça, muito maranhão, não sei , ou sei.
Afinal, aproxima-se o Enecom.
Por esses dias, senti no meu vasto menu de opressões mais uma...uma que nunca havia experimentado, aliás, duas.
Como disse um grande amigo, cometi um crime moral, transgredindo linhas de inteligibilidade para a nossa limitada sociedade..como foi doloroso, olhares de reprovação, repugnância de vários corpos abjetos. Abjetos criando seus abjetos, desfacelando novas margens e colocando-me em um "novo" vazio entre-lugar.
Ontem fiquei incomodado ao ver uma serelepe vaca bailando, no comercial da batavo...fiquei estarrecido, mas não me sinto no momento para ser militante de uma nova causa..fico por hora com a "monisse" e a comunicação social, apesar de sempre que posso alfinetar aos " amantes" da carne.
Vendo este comercial sinto uma inquietação, para não dizer irritação. O corpo Travesti/Transsexual aparece sempre como a cilada, o erro, o desvio. A materialização do improvável, o rizível.
Mesmo em uma sociedade onde a cidadania liberal paira sem o menor decoro estas pessoas são marginalizadas, logo por não serem cidadãs, mesmo no contexto do consumo. Será que elas não bebem água?
O corpo é deveras moldado, bem marcado como algo construído, e porquê este pânico de sentir prazer com/através da transsexualidades/travestilidades?
Alí com certeza há algo mais que o gozo fulgás, há a possibilidade de amor romântico, sonhos, desejos, confissões, que são negadas, oprimidas, desvilhenciadas.
Em algum momento as/os publicitári@s usarão de cartadas mais interessantes que o preconceito e a execração de minórias para ter eficácia em sua missão?
Entre as pedagios da vida há as belezas que se escondem, bem no fundo surgem como fantástica audácia pronta para ocupar eterno espaço no baú que carregamos.
Começou ontem, entre desconhecidos, próximos e queridos uma empreitada que nos guiará rumo ao Rio de Janeiro. Há tempos não reparava nas esquinas centrais, nos transeuntes, nas movimentações, desvios, solidariedades. Sorrimos ao fim do dia com a quantia posta em sacola branca. Promessa universitária, instantâneos sorrisos e abraços que se oferecerão em julho próximo.
Lembro do primeiro encontro de estudantes, daquela capital baiana, dos inúmeros amigos de almoços, lanches e painéis. Da praia que não deveríamos ter ido, da corrida frenética e embriagada do pelourinho. Do alemão, do francês e principalmente do carioca que foi cursar jornalismo na universidade de brasília. Lembro de Amanda, a barbie. Agosto com gosto de mais na boca.
Porto alegre ainda está fresca em minha cabeça, fico aqui a pensar no Rio, uma forma de amenizar as saudades. Grosseiro modo de lidar com a cidade que me cabe, comporta os deslizes e anseios desse rapaz. Enfim, pronto para novos abraços cativos, para brincadeiras e doiduras à paraíba.
E os dois colegas que me acompanham nesse breve sonho, signos e novas leituras espaciais. Terra é o que nos falta e formas mais avessas procuramos para as promessas do Rio tornarem bilhetes em agendas. Por isso Osmar e Eduardo, força no semáforo, pra contar aos que não foram tudo o que aconteceu no escurinho da cidade!
Cresceu em um lugar no mínimo sem brilho para alguém que a vida projetou mil maravilhas. Era a mais notada daquele país. Pernas compridas, deslumbrantes madeixas, vez ou outra rebolava em províncias vizinhas .
Tinha um ar arrogante, também pudera, foi fruto de técnicas caras e modernas de inseminação. Filha acarinhada por muitos, sua mãe ostenta o orgulho de ser virgem, afinal o hímen é complacente, logo permanece intacta, tal qual veio ao mundo.
Andava rodeada por marmanjos, semelhanças com cadelas ao cio. Usava tubinhos brancos, um visual mais clean, o sol era de rachar. A echarpe vermelha, brilho discreto na boca, cabelos definidos, cachos perfumados e levemente dourados pelo sol. Cintura única, de rara beleza. Pés delicados, contrariando a secura de suas terras.
Encismesmada, queria alçar vôos. Mostrar a todos suas profundidades e desdobráveis aptidões para o cotidiano. O sertão debilitava sua pele. Foi-se aos trópicos. Longa temporada passou em latino-america. Bailou em Havana, Caracas, Belém, Buenos Aires, Lima, Montevideo. Arrastou legiões de fãs, foi criticada, insultada, exaltada. Apareceu em notíciarios, frequentava baladas e celebrações religiosas. Filha legítima do consumo, pregava um novo olhar. Que comessem menos carne, praticassem exercícios, não fumassem. Nada de pegar sacolas plásticas no mercado.
Notou-se reivindicada por muitos grupos, queria sua privacidade, sua doce solidão. Enfaticamente perseguida, corria de muitos, seu salto desgastava, quebrava. Sucumbiu as vaias e impulsividades das massas raivosas.
Beberam otim, fumaram ópio, chuparam bubaloo. Cantaram singles, oh dj, please don't stop the music. Foram traidores, em ondas transcedentais, um grupo confundiu minha amiga com uma elzeira por aí, navalhou-a, dependurou o corpo no monumento das três raças. O sangue ficou alí, empoçado. Os dias sucederam, calmamente, sem nenhuma pressa ocasional. No fim do terceiro dia surgiu calma e serelepe uma nova promessa. Ela estava viva, não se sabe como, mas o brilho azul hipnotiza nossa doce capital.